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terça-feira, outubro 16, 2007

Hoje apetece-me... Bocage!

Quem não ouviu falar já de Bocage?

Manuel Maria de Barbosa l´Hedois Du Bocage, nascido em Setúbal (1765-1805) e sobejamente conhecido, mais pelas anedotas e dichotes do que pela poesia “séria”, é também autor dum vasto número de
poemas eróticos bastante ousados.

Aqui fica uma dessas pérolas, com ”bolinha” no canto superior direito do monitor:

A ÁGUA

Meus senhores eu sou a água
Que lava a cara, que lava os olhos
Que lava a rata e os entrefolhos
Que lava a nabiça e os agriões
Que lava a piça e os colhões
Que lava as damas e o que está vago
Pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
Que rega a salsa e o rabanete
Que lava a língua a quem faz minete
Que lava o chibo mesmo da rasca
Tira o cheiro a bacalhau da lasca
Que bebe o homem que bebe o cão
Que lava a cona e o berbigão

Meus senhores aqui está a água
Que lava os olhos e os grelinhos
Que lava a cona e os paninhos
Que lava o sangue das grandes lutas
Que lava sérias e lava putas
Apaga o lume e o borralho
E que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
Que rega as rosas e os manjericos
Que lava o bidé, lava penicos
Tira mau cheiro das algibeiras
Dá de beber às fressureiras
Lava a tromba a qualquer fantoche e
Lava a boca depois de um broche.

terça-feira, junho 05, 2007

Hoje apetece-me... António Aleixo!

Há já alguns dias que ando para colocar aqui uma quadra de António Aleixo que sempre achei espectacular. Talvez inspirado pelo jantar, aqui vai:

Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
qu'rer um mundo novo a sério.

Não resisto a publicar mais umas quadras, compiladas em "Este livro que Vos deixo". Fiquem com o António, e se tiverem oportunidade, não deixem de conhecer a obra do Poeta!

Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço
Que, sem parecer o que são,
São aquilo que eu pareço.

Para não fazeres ofensas
e teres dias felizes,
não digas tudo o que pensas,
mas pensa tudo o que dizes.

Entre leigos ou letrados,
fala só de vez em quando,
que nós, às vezes, calados,
dizemos mais que falando.

Após um dia tristonho
de mágoas e agonias
vem outro alegre e risonho:
são assim todos os dias


Sei que umas quadras são conselhos
que vos dou de boa fé;
outras são finos espelhos
onde o leitor vê quem é.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Foda-se!

Millor Fernandes é um dos grandes humoristas brasileiros. Não resisto a publicar aqui um seu texto , perfeitamente imperdível! Leiam, que vale a pena!

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "Foda-se!" que ela diz.
Existe algo mais libertário do que o conceito do "Foda-se!"? O "Foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor.
Reorganiza as coisas. Liberta-me.
"Não quer sair comigo?! - então, foda-se!"
"Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!"
O direito ao "Foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição.
Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.
"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"?
"Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.
A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!
Entendes?
No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!".
Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem.
O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto.Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida.
Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência.Solta logo um definitivo:
"Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!".O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)
Há outros palavrões igualmente clássicos.
Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba.
Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos.
Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.
E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"?
Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta:
"Chega! Vai levar no olho do cu!"?
Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima.
Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!".
Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?
Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!"
Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”
Então:
Liberdade,
Igualdade,
Fraternidade
e...

Foda-se!!!

Mas não desespere:
Este país … ainda vai ser “um país do caralho!”
Atente no que lhe digo!
Por Millor Fernandes (adaptado)

segunda-feira, setembro 18, 2006

Hoje apetece-me... Fernando Pessoa!

Palavras? Só do Mestre! Fernando Pessoa, em todo o seu explendor...
"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da alma. Agradecer a Deus em cada manhã o milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma critica, mesmo que injusta. Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
Façam o favor de ser Felizes!!!

segunda-feira, novembro 21, 2005

Homenagem a Mário Lago

Finalmente encontrei!
Uma frase de Mário Lago (para quem não se lembra, era o actor que fazia de Atílio na novela Casarão, que tinha uma banheira cheia de estrume), que há muito tempo procurava.
Acho só a melhor frase que alguém pode ter dito...
Leiam este exerto dum artigo que ele escreveu, e digam se não concordam comigo...

"Como diria Fernando Pessoa: 'tudo vale a pena, se a alma não é pequena'. Você escolheu o caminho, você tem que brigar por aquilo. Por uma razão muito simples: o dia em que o homem perder a capacidade de ter esperança, pode apagar o arco-íris, velho."
(Mário Lago)
Excerto extraído do artigo "Lembranças de Um Amélio" - Revista Caros Amigos, 64 de Julho de 2.002.